Sino aMigo dos suRdos
Te veNeram, voZ dos céUs
Oh sino da minha aldeia
Tão bruto no teu bater,
Por tua causa fugi
De uma casa por haver.
O vate Fernando Pessoa
Sem lhe chegar tal tortura
Deu-te versos de louvor
Qual poema de amor
À Ofélia tam distante,
Versando frases te entoa
De ti, sim, foi um amante.
Quem não tem fé te odeia
Fogem de ti os vizinhos
Há até umas casas boas
Mas por fenderes ouvidos
Só os asnos bem sabidos
Te gramam o estardalhaço.
Bruto bronze campanil,
Porradas são mais de mil
Quais mensagens do além,
De longe até soas bem
Quanto mais longe melhor,
Quanto mais perto pior.
Oh sino da minha aldeia
Entoando quem falece,
Só quem da mona padece
Inspiras a versejar,
Que caias da torre abaixo
Nada de mal t’acontece,
Mesmo se alguém te levar.
Sino amigo dos surdos,
Te veneram, voz dos céus
Não lhes feres os ouvidos
E nisso tiro o chapéu.
Ignoto és céu aberto
A quem venha de Lisboa.
Não critico o Pessoa,
Nem se achegou por perto.
2026-07-22 0509

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